Jaraguá produz quase 70% do abacaxi de Goiás e transforma a fruta em símbolo de desenvolvimento no Estado

Município responde por 68,2% da produção estadual e consolida Goiás como referência no cultivo de abacaxi no Centro-Oeste, impulsionando a economia e gerando renda para centenas de famílias.

Enquanto o Brasil colheu cerca de 1,4 bilhão de frutos de abacaxi em 2024, Goiás respondeu por 46,2 milhões de unidades, o equivalente a 3,1% da produção nacional. Embora ocupe apenas a 11ª posição no ranking brasileiro, um dado chama atenção: 68,2% de todo o abacaxi produzido no Estado sai de um único município, Jaraguá, localizado no Vale do São Patrício.

Com pouco mais de 50 mil habitantes, Jaraguá transformou a cultura do abacaxi em um dos pilares de sua economia. O município tornou-se a principal referência da fruta no Centro-Oeste e um exemplo de como a dedicação dos produtores e o investimento em conhecimento técnico podem gerar desenvolvimento no campo.

Em um Estado reconhecido pela força da soja, do milho, da pecuária e de outras commodities agrícolas, o abacaxi ocupa uma área menor de cultivo, mas desempenha papel importante na geração de emprego, renda e oportunidades para agricultores familiares.

Os números reforçam essa liderança. Dos dez maiores produtores goianos, Jaraguá, São Luiz do Norte e Hidrolina concentram quase 90% da produção estadual. Sozinho, Jaraguá colhe aproximadamente 31,5 milhões de frutos por ano, volume superior ao registrado por diversos estados brasileiros.

Quase cinco décadas de tradição

A liderança do município não surgiu por acaso. Ela é resultado de quase cinco décadas de trabalho de produtores que apostaram em uma cultura considerada exigente, que demanda conhecimento técnico, manejo especializado e acompanhamento diário da lavoura.

Entre os pioneiros está Zeca Paz, que iniciou o cultivo em 1978 e é reconhecido como um dos responsáveis pela introdução e expansão da cultura em Jaraguá.

“Quando comecei praticamente não existia produção comercial de abacaxi em Jaraguá. Fomos buscar conhecimento em Minas Gerais, aprendemos técnicas de manejo, seleção de mudas e controle de doenças. Foram muitos anos de trabalho até alcançarmos o padrão de qualidade que temos hoje”, afirma.

Segundo ele, o sucesso da produção resulta da combinação entre fatores naturais e experiência dos produtores. Solo fértil, altitude adequada, boa disponibilidade de água e alta incidência solar favorecem o cultivo, mas o principal diferencial está no conhecimento acumulado ao longo dos anos.

“Hoje existe mão de obra especializada. Quem trabalha com abacaxi em Jaraguá conhece todas as etapas do desenvolvimento da planta.”

Qualidade reconhecida dentro e fora de Goiás

A reputação construída pelos produtores fez com que o município conquistasse mercados muito além das fronteiras goianas. Atualmente, a produção abastece centros consumidores como Goiânia, Anápolis, Brasília e São Paulo, além de chegar ao Mercosul por meio de empresas exportadoras.

Para Zeca Paz, o reconhecimento nacional é consequência direta da qualidade da fruta.

“Pode chegar caminhão de qualquer lugar do Brasil. Quando chega um caminhão de Jaraguá, ele sempre encontra comprador. O mercado conhece a qualidade do nosso produto.”

O abacaxi que transformou pequenas propriedades

A história de Zeca também explica por que a cultura se consolidou principalmente entre pequenos produtores.

Administrador de empresas por formação, ele retornou a Jaraguá no fim da década de 1970 em busca de uma atividade agrícola economicamente viável. Após analisar diferentes culturas, concluiu que o cultivo do abacaxi oferecia rentabilidade muito superior à pecuária em pequenas áreas.

“Eu precisava encontrar uma atividade que desse retorno em pouca terra. Os estudos mostravam que o abacaxi era muito mais rentável que criar gado em pequenas propriedades. Resolvi apostar e nunca mais deixei essa cultura.”

A decisão coincidiu com o crescimento do consumo da fruta no Brasil, impulsionado pela busca por uma alimentação mais saudável e pelo reconhecimento das propriedades nutricionais do abacaxi.

Hoje, a cultura representa uma importante fonte de renda para dezenas de agricultores familiares.

“É uma atividade que permite viver bem em pequenas propriedades. Muitos produtores sustentam toda a família exclusivamente com o cultivo do abacaxi.”

Mercado aquecido e novos desafios

Mesmo representando uma pequena parcela da produção nacional, Goiás vem conquistando espaço pela qualidade da fruta, e não apenas pelo volume produzido.

Embora a produtividade estadual ainda seja inferior à média brasileira, produtores afirmam que o mercado valoriza características como doçura, uniformidade, coloração e resistência durante o transporte.

O produtor Hamilton de Morais, outro nome tradicional da atividade em Jaraguá, afirma que a demanda permanece forte.

“Graças a Deus, nunca falta mercado. Às vezes o preço diminui, mas vender a gente sempre consegue.”

Segundo ele, o abacaxi produzido em Jaraguá abastece consumidores de Goiás, Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro e outros estados.

Apesar do cenário positivo, Hamilton alerta que o maior desafio da atualidade deixou de ser a comercialização e passou a ser a escassez de mão de obra qualificada para trabalhar nas lavouras, fator que preocupa produtores e pode limitar o crescimento da atividade nos próximos anos.

Com tradição, qualidade reconhecida e forte participação da agricultura familiar, Jaraguá reafirma sua posição como a capital goiana do abacaxi, fortalecendo o agronegócio e demonstrando que a diversificação da produção rural também é um importante caminho para o desenvolvimento econômico de Goiás.

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