Secult relembra o acidente do Césio-137 com palestras e exibição de documentário

Césio-137

Secult relembra o acidente do Césio-137 com palestras e exibição de documentário

“Antes, eu era feliz. Depois, tudo acabou. Foi muito triste me despedir da minha filha sem saber o que estava acontecendo, sem imaginar o que viria. Poucos dias depois, eu a recebi de volta. Dentro de um caixão. Esse vazio nunca vai embora.”

A Secretaria de Estado da Cultura (Secult), por meio do Arquivo Histórico Estadual, promoveu nesta segunda-feira (8) o evento Narrativas da dor: Rememorando o acidente com o Césio-137 – 38 anos depois. A ação foi realizada no Cine Cultura, em Goiânia. Reportagem exibida pela TV Brasil Central mostrou como foi o evento e ouviu sobreviventes da tragédia que falaram das sequelas e do preconceito que ainda enfrentam.

O Cine Cultura exibiu o documentário O brilho da morte, de 2003, dirigido por Luiz Eduardo Jorge. A obra mostra os efeitos da tragédia a partir do depoimento de vítimas do acidente radiológico. Foram realizados palestras e debates com especialistas. Para o coordenador do Arquivo Histórico da Secult, Frederico Brandão, a intenção foi “pensar e agir pedagogicamente com a comunidade, relembrando o episódio que talvez seja o mais traumático da sociedade goiana”.

Entre as histórias mais dolorosas está a da pequena Leide das Neves, de apenas seis anos. Ela se encantou com o brilho da pedra retirada de um aparelho de radioterapia abandonado em Goiânia e não sobreviveu ao contato. A mãe dela, Lurdes Neves Ferreira, ainda lamenta a tragédia. Ele divide sua vida em duas partes: antes e depois do césio.

“Antes, eu era feliz. Depois, tudo acabou. Foi muito triste me despedir da minha filha sem saber o que estava acontecendo, sem imaginar o que viria. Poucos dias depois, eu a recebi de volta. Dentro de um caixão. Esse vazio nunca vai embora.”

Lurdes lembra que o primeiro contato com o pó radioativo causou estranheza, mas não despertou interesse. Para a filha, no entanto, o brilho parecia mágico. “A primeira impressão que tive quando vi aquela pedra que brilhava no escuro foi de receio. Eu me senti mal, não quis tocar. Mas minha filha ficou fascinada. E tudo aquilo destruiu a nossa família para sempre”, diz com pesar.

O impacto da tragédia foi coletivo. Vilma, outra vítima do acidente, relembra que o medo dominava a cidade, em um clima de incerteza. “Era como se fosse o fim do mundo. As pessoas não sabiam o que fazer, tinham medo de se aproximar da gente. Aquilo se assemelhou muito ao que vivemos anos depois com o coronavírus: o isolamento, a desinformação, o preconceito.”

O acidente que chocou o mundo segue como um lembrete de que a negligência pode ter consequências irreversíveis. A cada setembro, a tragédia do Césio-137 ressurge não apenas na memória de quem viveu o medo e a perda, mas também como um alerta para as novas gerações.

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